Joaquim Pessoa

O ĂšLTIMO ACTO





O ÚLTIMO ACTO


A causa é esta: não matar a alma
mesmo que o corpo estrebuche. E não vender a alma
por muito que o corpo necessite. Deixem
passar o amor, ainda falta um acto. Até ao cair
do pano pode o actor melhorar a sua performance, 
puxar pelo público, comprometer a plateia, 
merecer os aplausos.

Um actor. Um acto. Um acto de amor,
um auto da coragem contra todas as barcas do inferno.
Um auto da alma, pela alma, pela vida, pela capacidade
de amar, de vencer, de transformar. Sem 
abdicar, sem ceder, sem vender a alma ao diabo. 
Mesmo que o actor tenha de fingir que é
o que não é. Ainda que o actor não tenha de fingir, e seja.
A vida é uma peça a que falta sempre um acto. O tal.
Representar é viver. E a vida deixa sempre um espaço
para a nossa vontade, para o nosso talento,
para a nossa liberdade.

Mexe-te. Está já a subir o pano.
O público está à espera. Não esperes tu.
É agora. Começa hoje o desempenho do futuro.
Atenção às deixas. Não esqueças a marcação. Coloca
a voz, faz-te ouvir, mas não te excedas. O equilíbrio
é fundamental. Repara como reagem aos teus gestos.
Controla. E controla-te. Isso! Sabes debitar o texto
com todas as nuances ensaiadas. A plateia está
rendida às tuas capacidades. Vá! Puxa por eles!,
aquece o ambiente! E prepara-te para regressar
depois do intervalo.

É o último acto.
O mais importante. O decisivo. 
Vais estar por tua conta. Sem texto. Sem ponto. 
É a hora do improviso. Não tens deixas.
Não podes contar com mais ninguém.
É à tua capacidade que tens de pedir ajuda.
É ao teu talento que tens de pedir meças.
É ao teu público que tens de pedir mais.
Mais atenção. Mais compreensão. Mais emoção. Mais 
desafios. Estás sozinho em palco. A vida é tua. A peça
é agora a tua vida. Já não és um actor. És o actor.
Não facilites. Não cedas. Não te importes
até de ser vaiado. Tu podes dar a volta 
ao texto, ao desempenho, à vida.
Olha-os nos olhos. Repara como brilham. Estão 
excitados. Parecem nem acreditar. Mas tu,
acredita, acredita sempre. Vai! Prossegue. Não os deixes
respirar. Mas não percas tu o fôlego. O clímax
está perto. Olha como vacilam. Esperam. Esperam-te,
iluminado. Com toda a luz no rosto. Com toda a luz
nas mãos. Agora! Agora! Leva-os até ao cimo,
até ao riso, até às lágrimas. Até ao osso.

São para ti estes vivas, os bis,
os gritos que chamam o teu nome!

Porque só tu determinaste o fim da peça
e um fim para o actor. Recebe, pois,
em silêncio, os aplausos. Ninguém,
mais que tu, os mereceu.


(*) de POEMAS POLÍTICOS, a publicar
em Edições Esgotadas, 2014)