Joaquim Pessoa

Sobre a Obra do Poeta JOAQUIM PESSOA, José Cardoso Filho





Há tempos procuro uma definição próxima da completude 
para falar da tua obra, de teus poemas, e eis que hoje, do-
mingo, pela manhã, me deparo com essa casa que tu mes-
mo construíste, com tuas mãos, teu suor, tuas lágrimas,
teu barro de sentimentos, teu cimento de palavras. E a de-
finição que eu procurava me parece sólida e habitável: teus
poemas são a casa que abriga e ampara nossas necessida-
des do belo quando o feio nos agride, da alegria quando a
tristeza nos assoma, da inteligência quando a estupidez
nos consome, da vontade de viver quando o tédio nos pro-
cura. Tenhas, como eu tenho, a certeza de que tua casa,
sempre linda, cheia de flores, repleta de cachorros amigos,
com a mesa sempre posta, com frutas para alimentar nos-
sas fomes e vinhos para aplacar nossas sedes, janelas e
portas abertas para o vento e o sol mensageiros, sobrevive-
rá, forte e inabalável, a todos os tremores e terramotos de
Lisboa, como uma última coluna romana, pétrea, impávida, 
colossal mesmo quando pequena. Sim, meu grande e pode-
roso poeta, arquitecto de sonhos, tua casa de parábolas so-
breviverá a ti mesmo, e aí estará, daqui a centenas de anos,
visitada pelos anseios de teus pupilos, de teus alunos, de
teus filhos, que somos todos nós. Porque tua casa, mesmo
abstracta, é do mais absoluto concreto. Tenho dito.

José Cardoso Filho, 
Recife, BRASIL.