Joaquim Pessoa

POEMA CXIV (excerto)





Se te dói alguma coisa, não páres, continua
porque tudo é doloroso a começar pela dúvida. Tens
expectativas, todos os palerma têm expectativas,
alguma coisa tens de fazer mesmo que nada tenha
resultado nas últimas cinco vezes. Respira, se quiseres
respirar, com a coragem de quem assina um papel em 
branco e cuida da tua alma como um enfermeiro
ou um técnico de manutenção. Eu também sei
que não temos de fechar os olhos e partir,
porque nos podemos escolher a nós mesmos,
o que pode ser doloroso mas não é difícil
e temos de tentar, temos sempre de tentar
agarrar a felicidade porque ela não chega quando
menos a esperamos, mas quando nos esforçamos
e queremos muito que ela chegue.

Quando não estás pronto, nada resulta. Até 
o amor é como um sapo, sempre de um lado da noite 
para o outro, carregando o que de mais sujo e feio
existe em nós. Procura então com coragem
uma forma de não entrares na vida à socapa 
e ficares a assistir. O truque está em saber 
ver a diferença.

Não queiras permanecer no mesmo sítio
a cantar a mesma canção, sem ir a lado algum.
Desse modo, nada importará, porque o que 
realmente importa já nem te apetece procurar. E se
investires muito nas perguntas e pouco nas respostas, 
serás um mendigo que tudo tem e nada possui. Não
dobres a medo o cabo dos trabalhos, porque a tua
memória é líquida mas não se lembra daquela luz
que se esconde na água, nem sabe de que lado 
é a nascente dos pássaros que poisam 
nos sentidos das coisas que regressam.

Se quiseres falar, eu estou aqui.
No território onde podes contar coisas em que
ninguém acredita e onde eu posso deixar os meus versos
mesmo àqueles que não gostam de poesia.

O que é fabuloso continuará a sê-lo
enquanto pensares que o é.

(a publicar na antologia "POEMAS POLíTICOS", 
em 2014, na editora Edições Esgotadas)