Joaquim Pessoa

O amante em desgra├ža






Por ti, formosa jóia de ouro, passo as noites angustiado. Longe de ti, o céu cobre-se de sombras e a primavera é inútil. As flores abrem-se sem objectivo e os seus perfumes perdem-se no espaço. O meu coração arde com uma queimadura intolerável.

No meu jardim deserto, à sombra do limoeiro nevado de flores e nimbado de abelhas, bebo a água gelada que enche o pequeno tanque. Nessa água mergulho as minhas mãos, sem acalmar a minha febre.

Junto ao rosal que escolheste, evoco o nosso amor. Quando uma rosa perde as suas pétalas por ter-te esperado em vão, deixa cair lágrimas de púrpura. O perfume que acompanha a brisa é como o incenso que os cristãos queimam diante dos seus mortos.

Ó Senhor, para que eu possa subsistir, peço-Te apenas uma graça: que apagues do meu coração a imagem das suas pequenas sandálias, colocadas uma junto da outra, no umbral da minha porta!

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in OS HERDEIROS DO VENTO
(Antologia apócrifa de Joaquim Pessoa)