Joaquim Pessoa

A Cabeça entre as mãos?





Isto não é apenas um poema, é um Joaquim Pessoa. Parabéns, Joaquim Pessoa.

Miguel Almeida, 22 Agosto 2013

 

A Cabeça entre as mãos?

Que essa bela cabeça se esqueça, entre as mãos,
de uma breve colmeia: mel do mal das vinhas
da carne -- todas (quase todas) a sangrar;
o que peca, o que pega pela ponta do excesso,
aquele que ao confundir se não confunde e pede,
mede o que de louco há no pouco que existe;
-- ah, quanto não se veja e saiba se transmita
das águas em repouso aos ramos mais inquietos
dessa verdade toda que agora é uma parte,
a melhor?, a pior?, que na arte pressentes
entre vidros e gente, entre lápis e riso;
esse riso, o que morde em teu ombro contente?
tenho um sapo entre as mãos no lugar da cabeça
e uma voz que se afasta e diz basta e não diz
quanto gasta de branco e de giz e de sangue;
abro o corpo nas mãos: meus irmãos, aqui estou!,
o que sou nunca o soube, não sei, sai de mim
em profundas mentiras; ó ciclos, ó cordas
que me acordam em hordas de sílabas feridas,
ó artelhos do rio onde rio de ti,
o que faço?, que fazes?, que digo?, que sentes?
sei escrever entre dentes porque sou um país,
uma árvore que estala, uma bala, uma estrela,
a ribeira de lanças em que avanças por fim
ó miséria de todas; quantas coisas alcanças?
quanto vinho derrubas da sede em que fico?
ó relâmpago, ó mito, ó vergonha entre as mãos,
quem espero na sombra quando a sombra é um grito?
quantos passos eu sou? quantos passos darei?
onde vou, se fiquei? onde fui, se não vou?
lavo o sangue da lava que me escorre dos olhos,
levo o barco por terra numa terra de água --
o que a mágoa me acende são bandeiras de guerra,
o que erra ou não erra são balázios de mágoa;
estendo os braços ao longo do sono da terra:
o que pulsa é o sonho; é a morte; a repulsa
que te abate e acusa e recusa o combate
-- as palavras são todas as mesmas; as mesmas;
é mais fácil ter medo; mais profundo morrer
e saber; e saber quantas vidas deixar
(ah, a dor entre as mãos, uma outra cabeça
que me ajude a pensar, que me saiba sofrer
-- quantas coisas souber serão contas a dar);
que outra ferida me esqueça onde o dia se acaba,
se escrever é um mal e se avessa é a febre
que me torna mais leve uma ideia perdida;
-- o poema é um gato; é um tigre de pedra
e o que medra é a sombra, a tal sombra do grito;
cresce a voz da penumbra pelas margens do corpo
que só sabe gritar o silêncio por escrito;
-- esse tigre de pedra é uma boca que berra,
esse tigre de pedra é um gato aflito,
uma garra sem tempo, cruz em tempo de guerra,
dor que ferra e que fere e que fica parada
e é mais limpa e mais leve que a pedra de lava
depois de liberta de um peso infinito;
-- ó irmãs, ó palavras, ó rebanhos de nada,
de que vale, afinal, a cabeça entre as mãos?

In "GUARDAR O FOGO", Edições Esgotadas, 2013, pp. 251-252.